Era uma vez uma criancinha.
Não era apenas uma; era toda a infância do mundo, incluindo a minha.
A criancinha fez um corte no dedo.
Era sangue e sangue e mais sangue mas não lhe fazia medo.
"Ai que me dói! Ai que me dói!", berrou a criancinha endiabrada.
Não berrava porque lhe doía mas apenas para não ficar calada.
"Quero atenção! Quero atenção! Senão berro até mais não!"
A criancinha não disse isso em voz alta.
Não que fizesse falta.
Quem é pai e mãe sabe melhor do que ninguém.
É chantagem diabólica e frenética que já lhes vem na genética.
"Agora quero geladinho para não continuar com o choradinho!"
Um gelado?
E porque não?
Se é para ver o diabinho sossegado...
... e porque não um estaladão?
Oh, não, isso não!
Não se bate nas criancinhas!
Fazem-se mas é as vontadinhas.
"Havia de ser comigo!", disse de passagem um outro pai ou mãe.
Se fosse contigo, fazias igual também.
As criancinhas têm demónios nos neurónios.
A chantagem emocional é uma arma fatal.
Mas são criancinhas.
Coitadinhas!
São pequenos ser de inocência...
... ou a semente da demência.


