Quero-te. E, para além disso, quero-te mais.
Mas isso são palavras.
E o que querem as palavras?
Querem dizer o que dizem, ou querem apenas ser recompensadas.
"Também te quero".
E para além disso?
Queres que to diga outra vez para que, outra vez, mo voltes a dizer?
É esse o valor disso?
Se é, o silêncio vale mais. A falta de palavras compensa a falta de verdades.
Amo-te é sempre uma verdade. Se não for, é uma crueldade.
2009-11-17
2009-11-15
Os objectos avariados sofrem?

foto de Uglukzia
(não sei)
deu horas e deu e deu e deu e deu mais depois parou o coração de corda
e parou e parou e parou e parou até a espera tornar filhos em pais
e parou e parou e parou e parou até a espera tornar filhos em pais
...
tique taque
2009-11-06
Espantas-me o coração?
Há coisas que nos fazem subir o olhar.
O coração bate mais depressa e o tempo peca por escassez.
Parece que aquilo que queremos não tem meio de nos encontrar.
É como não ter papel para representar numa peça em que passam à frente na nossa vez.
Quem fez as coisas assim?
E porque as fez para mim?
Eu quero subir o olhar para me espantar.
Não quero fazê-lo para invejar.
Quero erguer o olhar e ver-me lá em cima, na montanha intransponível do ser absoluto.
Mas o melhor querer de todos é querer nada.
Não quero olhar para as montanhas dos outros, senão a minha vontade fica de luto.
Não quero ir para a guerra e voltar para casa com a rendição de parte derrotada.
Quero olhar para mim.
Não é coisa de orgulho, nem tem de fazer sentido.
É apenas a insanidade do coração que me bate no peito assim.
É uma contradição da razão, como se fosse um achado perdido.
Se me espantares o olhar fazes-me invejar.
Dás-me inveja.
Dás-me inveja.
Se me espantares o coração dou-te a mão.
E o mais que seja.
E o mais que seja.
2009-11-05
Como vemos as coisas?
foto de alexiussAs coisas são como as vemos, ou são apenas como são?
E os espelhos?
Vemos vidros ou rostos ou vidros ou rostos?
E os que são foscos?
Os vidros.
E os rostos.
E o que é que isso tem a ver com um colibri feito de água e um dente-de-leão?
Uns acham que ambos se beijam em cada encontro, e outros não têm essa visão.
Mas as coisas dependem do nosso olhar, ou existem para além desse limiar?
Uns sabem, outros não.
...
caleidoscópios
2009-11-02
Somos pó?
foto de iNeedChemicalXNasci de uma nuvem estelar que não tinha tempo de existir nem lugar.
Os elementos fizeram amor para me apresentar à dor.
Não nascemos a chorar?
Ainda não conhecemos o medo. É muito cedo.
Só pode ser dor. Ou saudade do ventre... do calor.
Necessidade de respirar?
Não.
No mundo há muito ar.
Acredito que é medo da terra. Esse é o único medo que nasce connosco.
É essa dor que a criança berra.
Carne, não somos.
Somos páginas velhas sufocadas em pesados tomos.
Temos idade e arrogâncias de verdade.
Com o decair da razão vem-nos o aperto ao coração.
Somos pó.
Só.
2009-11-01
As flores são o sangue da terra?
foto de sergiemagOferecemos aos nossos mortos coisas que matámos. Porquê?
Celebramo-los com beleza arrancada da terra e velas que não duram.
Cada campa devia ter uma árvore plantada e uma chama que jamais se apaga.
Todos os demais tributos são apenas pequenos frutos que saciam somente os pardais.
Roubamos flores à vida, como se elas nos devessem essa contrapartida.
Uma flor não nos deve nada. Mesmo aquelas que plantamos têm a dívida saldada.
A simplicidade da vida não deve nada a ninguém.
Mas nós inventamos e complicamos. Sem isso, olhamos para as nossas expectativas e sentimo-nos sempre aquém.
E se oferecêssemos aos nossos mortos a nossa vida?
Não lhes devemos essa riqueza perdida?
Eu digo que devemos. E sabemos. Mas não o fazemos.
A única maneira verdadeira de oferecermos as nossas vidas aos mortos é vivê-las por eles. Quando nos desperdiçamos enchemos de cobiça aqueles que se vão.
E, como se os quiséssemos arreliar, vamos enfeitar de vida efémera os lugares onde eles jazem no chão.
Não é com essa intenção que o fazemos. O que é triste é que, se há outra maneira, nós não a escolhemos.
Celebramo-los com beleza arrancada da terra e velas que não duram.
Cada campa devia ter uma árvore plantada e uma chama que jamais se apaga.
Todos os demais tributos são apenas pequenos frutos que saciam somente os pardais.
Roubamos flores à vida, como se elas nos devessem essa contrapartida.
Uma flor não nos deve nada. Mesmo aquelas que plantamos têm a dívida saldada.
A simplicidade da vida não deve nada a ninguém.
Mas nós inventamos e complicamos. Sem isso, olhamos para as nossas expectativas e sentimo-nos sempre aquém.
E se oferecêssemos aos nossos mortos a nossa vida?
Não lhes devemos essa riqueza perdida?
Eu digo que devemos. E sabemos. Mas não o fazemos.
A única maneira verdadeira de oferecermos as nossas vidas aos mortos é vivê-las por eles. Quando nos desperdiçamos enchemos de cobiça aqueles que se vão.
E, como se os quiséssemos arreliar, vamos enfeitar de vida efémera os lugares onde eles jazem no chão.
Não é com essa intenção que o fazemos. O que é triste é que, se há outra maneira, nós não a escolhemos.
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