foto de tuendeA nossa língua é sempre um sorriso de alma. É nas palavras da língua que nos acarinha a fala que crescemos e encontramos a nossa calma.
Dizemos morte e dizemos amor. Às vezes, com a mesma dor.
Eu choro com mais vontade por saber que na minha língua há uma palavra chamada saudade. Faz-me sorrir e entristecer com a mesma vontade.
O que escrevo corta-me como dentes famintos de cão. Ainda assim, estendo-lhe a mão.
A língua que nos escreve por fora as palavras que calamos por dentro é-nos grata e não. Dá-nos um agradável bater no peito e depois cai-nos o coração. Morre-nos aos pés e o olhar aumenta-nos a dor por dez.
No ódio, as palavras que nos saem da boca são a fera que sai da toca.
A raiva transforma as palavras em animais selvagens.
O calor das veias leva-nos para outras paragens onde ardem mil sóis na nossa parte do céu. Quando nos vem a vontade do regresso só choramos tudo o que se perdeu.
Ficou a cinza. O resto, o calor das palavras levou. Ardeu.
É fácil acreditar que a culpa é das palavras e que tudo foi um mal-entendido que se deu. Mas não se deu nada. Tirou-se.
A raiva pegou numa história mal contada e, a partir daí, vingou-se.
Mas a raiva não se vinga na língua, apenas lhe altera a voz. A malvadez vingativa, essa, regressa a nós.
Depois, resta-nos apenas a língua. E, com essa única companhia, ficamos sós.
Não tem de ser essa tristeza. Mesmo para a palavra mais sozinha podemos encontrar uma companhia. Trazemos pela mão a dúvida e apresentamos-lhe a certeza.
A fealdade também casa com a beleza.
E a tristeza partilha o coração com a alegria.
A cada respirar se dão encontros improváveis de palavras que envergonham os limites da poesia.
Se mais eu pudesse, mais encontros desses eu faria.
Eu seria o mágico e a língua seria o meu melhor truque de magia.
